sábado, 24 de janeiro de 2015

LEIA ESTA IMPORTANTE ENTREVISTA DE ARMÍNIO FRAGA COM A JORNALISTA ELIANE CATANHEDE, PARA ENTENDER UM POUCO MAIS DE BRASIL

Eliane Cantanhêde - O Estado de S. Paulo

Num estilo mais direto e crítico do que de costume, o ex-vilão da campanha presidencial, Armínio Fraga, disse ao Estado que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, “largou bem, mas é uma ilha de competência em um mar de mediocridade, com honrosas exceções”. Segundo Armínio, que foi presidente do Banco Central no governo FHC e seria o homem da economia num eventual governo de Aécio Neves, “o governo é carregado de incompetência, de ideologia e de corrupção”.


- Depois de virar o vilão da história durante a campanha, como o sr. se sente agora? 
- Estou me desintoxicando da campanha. Eu não sou vilão e me irritava o baixo nível do debate e aquela verdadeira produção de mentiras e de cenas, tudo muito teatral. Eu dizia uma coisa, eles deturpavam ou tiravam do contexto. Dizia outra, eles deturpavam de novo. Então, foi tudo muito frustrante. E eu não sou desse mundo. 
- Que mundo? 
De campanha, de debate político, de confronto parlamentar. Sou uma pessoa engajada, que pensa o Brasil, que pensa política pública, mas não faço política diretamente.
- O que o sr. conclui com a experiência? 
Estamos vivendo uma enorme crise de valores e isso é gravíssimo. Nós temos exemplo para todo lado, é mensalão, é petrolão, mentiras na campanha, como se tudo isso fosse muito natural. Não é. 
- E a economia? 
Há um ciclo, desde que o presidente Lula mudou de linha na área econômica no segundo mandato, com características populistas que incluem esse tipo de discurso distorcido e muito difícil de se contradizer. Muita gente acredita que um regime populista não se derrota; ele mesmo quebra, se destrói. Então, o que o Aécio tentou na campanha, e nós todos junto com ele, foi derrotar um regime populista que tem tentáculos enormes que atingem um número imenso de pessoas.
- Baixo crescimento, inflação alta, juros altos, nada disso foi capaz de derrotar Dilma. Por quê? 
No que se refere ao ciclo econômico, as coisas às vezes demoram a acontecer. As implicações de uma desaceleração drástica do crescimento, como ocorreu no primeiro mandato dela, ainda não se fizeram sentir. Estão a caminho. E quem vai sentir mais são os mais pobres. São sempre eles, sempre, sempre, sempre.
- Pode-se dizer que a grande falha da era petista é a perda de competitividade?
Não gosto dessa palavra, competitividade. Ela tira o foco da palavra mais importante, que é produtividade. Como você chega a ser competitivo? Produzindo. Então, falta uma educação de qualidade, empresas acopladas aos melhores padrões globais, trazer para cá o que presta. O Brasil não precisa focar apenas em inovar. Em algumas áreas pode apenas imitar. E nem isso nós estamos conseguindo.
- O Levy não está indo bem? 
O Levy largou bem, mas é uma ilha de competência num mar de mediocridade no governo Dilma, com honrosas exceções, como os ministros Izabella Teixeira (Meio Ambiente), Kátia Abreu (Agricultura) e Alexandre Tombini (Banco Central). Sozinho, o Levy vai até um ponto. Pode evitar ou postergar um rebaixamento do crédito do País e até acalmar um pouco as expectativas, mas o lado qualitativo que nós imaginávamos vai continuar muito prejudicado. O Brasil tem uma renda per capita que é menos de 20% da americana. Então, há um espaço enorme para crescer. O Brasil deveria crescer e pode crescer, e rápido, mas tem de arrumar as coisas de uma maneira muito ampla.
- Fundamental agora é arrumar as contas? 
É bom arrumar as contas, mas não é só arrumar as contas. O Levy já anunciou medidas para tapar metade do buraco que ele definiu como meta para o primeiro ano. Não quero entrar em detalhes, mas umas são melhores, outras são muito polêmicas, como essas das pensões. São questões tão fora da curva global que nem deveria haver discussão, mas eram proibidas, vetadas, nessa campanha completamente maluca que nós tivemos. 
- As medidas anunciadas até agora não são suficientes? 
Ele está focando mais do lado da receita do que do gasto. Em parte porque integra um governo que tem essa cabeça, que deixou essa herança aí. Num governo carregado de ideologia, de corrupção e de incompetência, não há nada para cortar? É lógico que tem muita gordura para cortar e, se houvesse um corte de 10% em todas as instâncias, a população nem ia notar. Eu até reordenaria: incompetência em primeiro lugar e depois ideologia e corrupção. Por mais gigantesca que seja a corrupção, acho que os outros dois têm até peso maior, aliás, bem maior. 
- É mesmo? Por quê? 
O impacto econômico que se tem quando o país cresce zero, em vez de quatro, é inimaginável, incalculável, gigantesco. Muito maior do que esses 3% que, aparentemente, são cobrados aí de tudo.
- O que mais é preciso fazer? 
Tem de mexer em tudo, tem de abrir e dizer: “Tudo está valendo”. Isso é que faz falta. Como o Levy vai trabalhar, se tudo o que está aí foi feito pelo próprio governo e com a própria presidente à qual ele se reporta? Então, ele trabalha numa saia-justa danada. 
- Se o Aécio Neves tivesse sido eleito, ele estaria fazendo tudo isso que a Dilma liberou o Levy para fazer? 
Não sei bem o que é “tudo isso”. Sinceramente, acho pouco. 
- O Aécio aumentaria as tarifas? Foi isso que disparou as manifestações de junho de 2013.
Num sistema no qual haja princípios, um certo realismo tarifário é essencial. É legítimo discutir para onde a conta vai, se vai para o consumidor, se vai para o contribuinte, mas para algum lugar ela vai. Do bolso de alguém sai. São decisões difíceis, mas é preciso o mercado funcionar para não haver racionamento.
- E as dificuldade políticas para fazer exatamente as mesmas coisas ou mais? CUT, MST e UNE calam com a Dilma, mas não calariam com vocês. Seria um caos? 
Talvez. Mas, de outro lado, nós teríamos um jato de ânimo, de energia na economia que colocaria as pessoas em dúvida quanto a ir para a rua fazer manifestação. Tem tanta coisa errada que um grupo de pessoas trabalhando com um bom objetivo, com visão clara do que precisa ser feito, chegando cedo e saindo tarde todo dia poderia fazer muito, muito mesmo. 
- Os críticos petistas das medidas de Dilma e do Levy dizem que a política econômica que eles estão fazendo é do PSDB, que pune trabalhadores, consumidores, contribuintes e poupa os ricos. Concorda? 
O nosso modelo é muito, mas muito mesmo, mais progressista do que esse que está aí. Lugar de empresário é na fábrica, não é em Brasília. Isso é altamente regressivo. Um sistema muito ruim, no qual empresas doam centenas de milhões de reais para as campanhas. Como pode isso? Não é possível que dentro do PT e entre simpatizantes do PT não haja um monte de gente que não veja isso, que não enxergue a loucura que é tudo isso.
- As pessoas vão ter de acordar?
O silêncio dessa base petista não é sobretudo estranho nos bancos oficiais e na Petrobrás? Acho que eles viveram o efeito do sapo na panela. Sabe como é? O sapo está lá na panela, no início a água é geladinha, depois vai esquentando devagar, ele não percebe, até que ferve e ele morre.
- A água está fervendo? 
Já ferveu. Muita gente da Petrobrás, do Banco do Brasil, da Caixa nos procurou para falar das frustrações deles. As origens do PSDB são de centro, de centro-esquerda. O Estado tem um papel importante para combater a pobreza, para promover a igualdade de oportunidades. Isso não é conservador. Conservador é ficar dando dinheiro para empresário.
- E o risco sistêmico do escândalo da Petrobrás e das empreiteiras, sobretudo no setor financeiro? 
Tira o financeiro, porque o risco é sobre toda a economia brasileira. O trabalho da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça é saudável, mas que isso gera uma certa paralisia durante um tempo, isso gera. É o preço a pagar. Certamente vale a pena.
- Recessão este ano? 
É, recessão. Na verdade, já tem recessão. O País cresceu menos de 1% no ano passado, deveria estar crescendo 4%. Vai dizer que não é recessão? Na China, quando cai de 8% para 7%, é recessão.
- E os empregos? 
É isso. Infelizmente, o desemprego vai aumentar. Primeiro, vem a insegurança, depois vem a falta de criação de postos de trabalho, e enfim vem demissão mesmo. Tudo dentro do quadro de recessão.
- O sr. trabalhou anos fora do País. Qual o efeito de tudo isso sobre a imagem externa do Brasil? 
É péssimo. Aquela euforia exagerada de 2010 passou totalmente. A percepção, então, é ruim e vem piorando. É e a percepção de um país que vem perdendo relevância. É triste.
- E a política externa? 
Sinceramente, perdeu a graça.

Polícia Federal recomenda que Petrobras impeça início de obras sem projeto básico

Após receber uma lista de medidas tomadas pela Petrobras para evitar que se repitam os casos de corrupção investigados na Operação Lava Jato, a Polícia Federal divulgou um despacho recomendando que a estatal impeça o início de qualquer obra sem projeto básico concluído e que se capacite na detecção e combate a cartéis. "Acrescentamos ainda a necessidade de vedar o início de toda e qualquer obra sem ao menos o projeto básico concluído, o que acabou dando causa tanto a aditivos legítimos porém evitáveis (justificados pela falta de diligência/planejamento/decisões equivocadas na Petrobras) como a ganhos indevidos por parte das empreiteiras", diz o delegado Eduardo Mauat no despacho, assinado nesta sexta-feira (23). A Lava Jato investiga um esquema de pagamento de propina a funcionários da estatal, desvio de recursos para partidos políticos e formação de um cartel de empreiteiras para ganhar as licitações. O delegado cita observações feitas pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) para coibir os cartéis e, com base nelas, sugere que a Petrobras exija nas licitações uma declaração das empresas ou consórcios certificando que a proposta foi realizada sem qualquer contato com os concorrentes e que a área de compras e licitações da estatal seja treinada para detectar e combater cartéis. A Petrobras havia enviado um ofício de oito páginas à Polícia Federal informando as medidas que está tomando para evitar que os problemas investigados na Lava Jato se repitam. Entre as medidas na estrutura da empresa, foi criado um programa de prevenção à corrupção, que será monitorado por uma gerência geral de controladoria dentro da auditoria interna, e os relatórios trimestrais de auditoria serão acompanhados pela diretoria executiva. A Petrobras também informou que os projetos não poderão antecipar a aquisição de equipamentos e terrenos enquanto ainda estiverem sob análise e também terá que ser elaborado um parecer de desempenho para verificar o andamento de uma obra e aprovar ou não a continuidade dela, com a liberação de recursos. Também está sendo criado o cargo de diretor de governança, risco e conformidade, com o objetivo de monitorar riscos de corrupção.

Justiça decreta prisão preventiva do policial militar que assassinou surfista em Santa Catarina

A Justiça de Santa Catarina decidiu manter preso preventivamente o policial militar Luis Paulo Mota Brentano, de 25 anos, que atirou e matou o surfista Ricardo dos Santos, o Ricardinho, na última segunda-feira. A decisão da Justiça ocorreu após a divulgação de um laudo, na quinta-feira (22), atestando que o policial havia consumido álcool momentos antes do crime e que o surfista foi morto com dois tiros – um deles o atingiu pelas costas. Com a decisão, o policial militar, que havia sido preso em flagrante na própria segunda-feira, deverá ficar detido até o julgamento ou em caso de nova decisão da Justiça. O policial atirou no surfista após uma discussão na porta da casa da família do atleta, na praia Guarda do Embaú, em Palhoça, município da Grande Florianópolis. Segundo depoimentos, o policial parou o carro em frente a uma obra realizado no imóvel, quando a discussão teve início. Na versão do policial, que alega legítima defesa, Ricardinho teria lhe ameaçado com um facão.

O surfista Ricardo dos Santos, que morreu na terça-feira, aos 24 anos
A Justiça, porém, aponta não haver prova disso, já que uma testemunha afirma que Ricardinho estava apenas com o celular e que "o facão não foi encontrado, sequer sendo citada sua existência pelos policiais militares que logo em seguida atenderam a ocorrência e compareceram naquele local". Ricardinho morreu na terça-feira após ser submetido a quatro cirurgias. Sua família doou as suas córneas. Outros órgãos não puderam ser doados porque o surfista sofreu hemorragia interna. O surfista catarinense começou a disputar etapas do Circuito Mundial em 2008. Estava fora da elite desde 2013. Em 2012, em um de seus maiores feitos na carreira, derrotou Kelly Slater, dono de 11 títulos mundiais, em uma etapa do WCT. Sua morte repercutiu no mundo todo. Amigos como Gabriel Medina e Kelly Slater lamentaram a forma brutal como foi assassinado.

Doleiro Alberto Youssef pode ganhar R$ 10 milhões se ajudar a recuperar desvios da Petrobras

O crime pode não compensar, mas, sabendo negociar, dá para sair dessa vida milionário. É o que pode acontecer com o doleiro Alberto Youssef, tido como um dos principais operadores do esquema da corrupção na Petrobras. Se ele for extremamente eficiente na recuperação de recursos desviados de contratos da estatal, pode acumular milhões como recompensa pela ajuda dada ao Ministério Público Federal e à Polícia Federal. Para ganhar R$ 10 milhões, por exemplo, ele teria que ajudar a recuperar R$ 500 milhões desviados. A taxa de sucesso prevista no acordo de delação premiada do doleiro é de 2% sobre os valores recuperados. "É com essa estimativa que nós trabalhamos. O Alberto conhece muito bem o caminho do dinheiro nos paraísos fiscais", afirma o advogado Antonio Figueiredo Basto, que defende Youssef e costurou o acordo com os procuradores da Operação Lava Jato. Segundo Figueiredo Basto, o acordo de Youssef é o único entre os nove assinados na Lava Jato que tem uma cláusula de performance ou taxa de sucesso. Se cumprir integralmente o acordo, Youssef perderá bens que valem R$ 40 milhões – valor da multa estipulada pelos procuradores pelos crimes que praticou.
 

Entre outros bens, ele perderá um hotel em Porto Seguro (BA) e participações em outros hotéis em Aparecida (SP), Jaú (SP) e Londrina (PR). Ficará também sem outros dois imóveis e sem três carros de luxo – um Volvo CX 60 blindado, um Mercedes Benz CLS 500 e um Tiguan blindado. Ele também perderá R$ 1,8 milhão que a Polícia Federal encontrou no seu escritório em São Paulo. Figueiredo Basto diz que se inspirou em acordos americanos para propor a cláusula de performance: "Esse tipo de cláusula existe no mundo inteiro, nos países que têm os melhores modelos de combate à corrupção, como os Estados Unidos". Segundo ele, o próprio nome do instituto (delação premiada) já contém a noção de que o criminoso "vai ganhar algum prêmio no final do processo". Renato Silveira, professor titular de direito penal da Faculdade de Direito da USP, porém, vê problemas com esse tipo de cláusula. "Acho incompatível esse tipo de prêmio porque não existe recompensa a ser ofertada pela Justiça ou pelo Ministério Público no Brasil", afirma Silveira. Nos Estados Unidos, frisa o professor, a recompensa é prevista em lei e tem uma tradição jurídica que remonta ao século 19. Esse tipo de cláusula, segundo ele, deve gerar uma polêmica jurídica após a conclusão da Operação Lava Jato porque não há um histórico sobre esses acordos no País. A delação de Youssef foi homologada pelo Supremo Tribunal Federal, em 19 de dezembro. Na última quarta (20), o juiz Sergio Moro tornou público os termos do acordo. Outro problema sobre a recompensa, segundo o professor, é a inexistência de jurisprudência sobre delação premiada no Brasil. Não há um histórico do que é aceitável ou não nesse tipo de acordo, ainda de acordo com Silveira. O advogado de Youssef rebate as críticas do professor. "Se o Supremo já homologou o acordo é porque não há nada de inconstitucional nele", defende Figueiredo Basto. Outro fato que precisa ser ponderado, segundo o defensor do doleiro, é o tipo de colaboração que Youssef prestou. "Sem as informações que o Alberto forneceu aos procuradores, a Lava Jato não teria chegado às empreiteiras e aos políticos". Foi o doleiro que forneceu aos investigadores os nomes dos 11 executivos de empreiteiras que estão presos desde novembro em Curitiba. Também entregou uma lista que pode chegar a 60 políticos.

Brasileiro acusado de terrorismo é extraditado para a Espanha

O brasileiro Kayke Luan Ribeiro Guimarães, de 18 anos, preso na Bulgária acusado de envolvimento com terrorismo, foi extraditado nesta sexta-feira (23) para a Espanha e já prestou o primeiro depoimento à Justiça espanhola, informou o tribunal espanhol Audiência Nacional. Depois de ouvi-lo, o juiz Santiago Pedraz decretou a prisão incondicional de Kayke, sem direito a fiança, e irá julgá-lo por delito de integração em organização terrorista, com pena prevista de 6 a 12 anos de cadeia. Ele será julgado por esse tribunal, que lida apenas com as acusações mais graves do país, como terrorismo, narcotráfico e crime organizado.
 
O brasileiro Kayke Luan Ribeiro é escoltado por policiais durante uma audiência no tribunal da Bulgária
O jovem foi preso no dia 15 de dezembro de 2014 na fronteira da Bulgária com a Turquia quando, ao lado de dois marroquinos, estava a caminho da Síria para se alistar no grupo terrorista Estado Islâmico. Fontes diplomáticas informaram que o Itamaraty foi avisado por telegrama no fim da tarde de quinta-feira (22) que Kayke seria transferido na madrugada de sexta-feira. Na Espanha, as autoridades se negaram a passar qualquer informação sobre a transferência do brasileiro "por motivos de segurança de Estado e segredo de julgamento", mas confirmaram a extradição e o depoimento no início da noite desta sexta-feira. Ainda segundo a Audiência Nacional, Kayke foi encaminhado para o Centro Penitenciário Madrid 5, em Soto del Real, onde esperará julgamento. Essa é a mesma penitenciária na qual ficou presa a doleira brasileira Maria de Fatima Stocker, até ser extraditada para a Itália, onde está presa em Roma. Goiano nascido da cidade de Formosa (a 75 km de Brasília), ele vive há cerca de dez anos em Terrassa, subúrbio de Barcelona. Segundo os Mossos d'Esquadra, a polícia catalã, o jovem vinha sendo investigado desde junho por frequentar reuniões de grupos terroristas islâmicos nos arredores da capital. Fontes do Itamaraty informaram que Kayke negou ser um terrorista e reafirmou que estava apenas indo à Turquia de férias. Mas, para a família, o jovem tinha dito que ia de férias para a ilha mediterrânea de Maiorca. Kayke confirmou às autoridades diplomáticas brasileiras que tinha se convertido ao Islã, mas "apenas para se casar". Entretanto seu estado civil na Espanha consta como "solteiro". Ele ficou preso durante mais de um mês no Centro de Segurança de Haskovo, a quatro horas de Sófia, um presídio exclusivo para criminosos de alta periculosidade e envolvidos em casos relacionados à máfia e terrorismo. Durante o período, não pôde receber telefonemas – nem mesmo das autoridades brasileiras – e só podia realizar uma ligação a cada sete dias. No dia 18 de dezembro, ele recebeu uma visita consular e pediu produtos de higiene básicos e cobertores. A embaixada forneceu também uma "pequena quantidade de dinheiro" para que ele pudesse comprar fichas telefônicas e falar com a família, além de um remédio para asma, já que o rapaz estava sofrendo com fortes crises asmáticas pelo frio dentro da prisão. O governo brasileiro informou que não vai intervir nas investigações e apenas está prestando assistência consular. No ano passado, o caso do belga Brian De Mulder teve destaque no Brasil. Filho de uma brasileira, ele está na Síria desde janeiro de 2013 lutando com o grupo terrorista Estado Islâmico.

Sem tradição


O governo tem oferecido mundos e fundos para deputados aderirem a Arlindo Chinaglia e não embarcarem na canoa de Eduardo Cunha. O problema, diz um experiente peemedebista, é que este governo não tem tradição de pagar o que promete aos políticos, ao contrário de Cunha. (Lauro Jardim)

O “x” do problema

dilma e cunha
Dilma e Cunha: sorrisos amarelos
Dilma Rousseff, Aloizio Mercadante, Pepe Vargas e Ricardo Berzoini se reuniram na semana passada no Palácio do Planalto para tratar de um dos temas que mais afligem o governo: a eleição para a presidência da Câmara. De acordo com relatos feitos a outros petistas, muito mais do que qualquer diferença ideológica ou antipatia pessoal, o que pesa mesmo no núcleo duro do governo contra Eduardo Cunha e a favor de Arlindo Chinaglia é o receio de que o peemedebista possa pôr em votação – ou liderar – um processo de impeachment contra Dilma. Cunha já mandou recados de que não agirá assim. Mas o Planalto não acredita. (Lauro Jardim)

Ministério Público de Portugal investiga denúncia de que Lula acertou propina de mais de R$ 7,5 milhões com a Portugal Telecom


A denúncia do publicitário Marcos Valério de que o PT recebeu 2,6 milhões de euros da Portugal Telecom começou a ser investigada pelo Ministério Público de Portugal. Segundo a imprensa daquele país, o ex-presidente da telefônica Miguel Horta (na foto com Lula) e Costa prestou depoimento no último dia 9 no Departamento Central de Investigação e Ação Penal. O depoimento foi solicitado pela Polícia Federal brasileira por meio de carta rogatória, mas as autoridades portuguesas resolveram abrir uma investigação local contra Costa por corrupção no comércio internacional. No Brasil, o caso tramita em um inquérito da Polícia Federal mantido em segredo. O depoimento foi pedido em outubro do ano passado. Os policiais já teriam recebido as declarações do português, mas não divulgaram o material. O caso começou a ser investigado em 2012, depois que Marcos Valério, condenado por operar o esquema do mensalão, denunciou o pagamento feito ao PT durante o governo Lula. Em troca, a Portugal Telecom obteria facilidade na compra da Telemig. Segundo Valério, a propina foi negociada entre Costa e o então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio do Planalto. De acordo com Marcos Valério, o dinheiro foi transferido por meio de uma fornecedora da Portugal Telecom em Macau, na China, a publicitários brasileiros que trabalharam em campanhas eleitorais do PT. Marcos Valério disse que uma viagem que ele fez em companhia do advogado Rogério Tolentino e o ex-secretário do PTB, Emerson Palmiere, a Portugal, em 2005, foi parte da negociação para o pagamento. A oposição vai encaminhar requerimento de informações ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e tentar aprovar no Senado a criação de uma comissão externa para ter acesso ao processo aberto em Portugal. Na quinta-feira o líder da minoria na Câmara e senador eleito Ronaldo Caiado (DEM-GO) anunciou que vai requerer ao Ministério Público brasileiro acesso às respostas dadas por Costa. "Nós vamos agir em duas frentes para saber se há previsão de ouvir o ex-presidente Lula aqui. Primeiro vou solicitar ao procurador Rodrigo Janot o envio de informações sobre o depoimento do ex-executivo da Portugal Telecom. Se ele não teve acesso ao processo que corre em Portugal, então nós vamos propor a criação de uma comissão externa do Senado para ir lá acompanhar o processo. Se o ministro Janot já estiver de posse dessas informações e der conhecimento ao Senado, não há necessidade de irmos lá", explicou Caiado. O presidente e líder do DEM, senador José Agripino Maia (RN), acredita que, nessa investigação, Lula pode ser incriminado. "A providência de requerer o depoimento do senhor Miguel Horta é o primeiro e fundamental passo. Se o processo não anda aqui, pode andar lá. Portugal e Espanha estão dando especialíssima atenção a investigações de crimes do colarinho branco envolvendo políticos. Se há conexão com o PT e Lula, aqui, vai ter desdobramentos. Lula pode acabar sendo apanhado por uma circunstância secundária ao mensalão", afirmou Agripino Maia. Logo após as eleições do ano passado, em dezembro, Lula foi ouvido como testemunha em um dos dois novos inquéritos abertos para investigar as denúncias de suposto envolvimento do PT e de Lula no mensalão. Segundo a revista Época noticiou, na noite do dia 03 de dezembro Lula recebeu na pista do Aeroporto de Congonhas a carta precatória assinada pelo delegado federal Rodrigo Luis Sanfurgo de Carvalho, chefe da área de repressão a crimes financeiros e desvio de recursos públicos em São Paulo. O depoimento aconteceu no dia 09 de dezembro.

Eduardo Cunha promete não deixar passar pedido de impeachment contra Dilma.


Uma das maiores preocupações do PT com a eventual eleição de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para a presidência da Câmara é que ele acate um pedido de impeachment da presidente da República por causa do escândalo de corrupção na Petrobras. Conselheiros da presidente sugeriram a Dilma, logo após as eleições de outubro, que fosse feito um acordo com Eduardo Cunha para evitar tanto a instalação de uma nova CPI como um pedido de impedimento. O vice Michel Temer também advertiu que as investidas do governo contra Eduardo Cunha poderiam criar um inimigo para o Palácio do Planalto na presidência da Câmara. Não houve jeito. O PT manteve a candidatura de Chinaglia e o governo acionou seus aliados para bombardear o peemedebista. Na viagem ao Ceará, por exemplo, o governador e o prefeito locais cancelaram de última hora uma agenda institucional que teriam com Eduardo Cunha. O candidato, no entanto, assegurou que o temor do PT e do Palácio do Planalto não procede: "Se depender de mim, arquivo sumário". E depende. O regimento da Câmara prevê que seu presidente pode arquivar sumariamente eventuais pedidos de impeachment protocolados na Casa. Já aconteceu em mais de um governo, desde a redemocratização. E tem mais: se as investigações em curso mostrarem que a presidente da República teve alguma responsabilidade nos casos de corrupção revelados, ainda assim Eduardo Cunha tem argumentos para enviar um pedido de impeachment para o arquivo: "Arquivo sumário diante de qualquer quadro", disse o peemedebista. "A menos que seja uma coisa..." Ele para, pensa e completa: "Tenho uma filosofia: tudo que aconteceu com relação às denúncias que existem hoje aconteceu no mandato passado, encerrou no dia 31 de dezembro. Não vejo como responsabilizar, do ponto de vista político, em nenhuma circunstância, a presidente da República". Nos costumes, pode-se esperar um presidente da Câmara ultraconservador como foi o candidato a deputado federal Eduardo Cunha nas últimas eleições. Quando ele fala que terá respeito às minorias, refere-se à proteção que pretende dar às bancadas de oposição contra o rolo compressor governista, sempre que este for acionado. Nem de longe está pensando em liberalização em relação a temas como aborto ou descriminalização da maconha. São projetos que não pretende colocar em votação. Ponto. "Vão ter que me derrotar, tem o regimento, tem instrumentos para fazer isso", diz. Resumidamente: o deputado faz um requerimento de urgência, que deve ser assinado pela maioria dos líderes partidários para ser colocado em pauta. Ultrapassando essa barreira, o requerimento precisa ter no plenário uma votação da maioria absoluta para o projeto ser pautado. Ou seja, 257 deputados. Uma barreira intransponível, na atual relação de forças do Congresso. "Descriminalização de drogas, legalização de união civil de pessoas do mesmo sexo, qualquer cogitação em termos de aborto são temas, em minha agenda, inteiramente fora de cogitação", diz. Tem outro, muito caro ao PT: a regulação de mídia. "Serei frontalmente contrário, vão ter que passar por cima do meu cadáver para poder votar um projeto de regulação de mídia".

Preço da comida, conta de luz e ônibus aumentam inflação para 6,69%, diz IBGE. É o pobre quem está pagando o preço Dilma


O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) subiu para 0,89% em janeiro, depois de registrar 0,79% em dezembro. No acumulado dos últimos 12 meses, o índice foi para 6,69%, acima do teto da meta de inflação, que é de 6,5%. Segundo os dados divulgados nesta sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o item carnes liderou os principais impactos individuais do mês, com 0,09 ponto percentual e alta de 3,24%. Além deste, outros itens que exerceram pressão, como batata-inglesa (32,86%) e feijão carioca (24,25%), levaram o grupo Alimentação e Bebidas, com alta de 1,45%, a ser responsável por 40% do IPCA-15 de janeiro, com impacto de 0,36 ponto percentual. A energia elétrica teve o segundo maior impacto do mês com 0,08 ponto percentual e alta de 2,60%. À exceção da região metropolitana de Fortaleza (-4,82%) e de Salvador (-1,91%), cujas contas tiveram queda na parcela referente ao PIS/Cofins, as demais apresentaram alta, com destaque para Porto Alegre, que chegou a 11,80% tendo em vista o reajuste de 22,41% em uma das concessionárias desde 8 de dezembro. Neste mês de janeiro, em todas as regiões, foi apropriada parte do efeito do Sistema de Bandeiras Tarifárias, modelo de cobrança do gasto com usinas térmicas, que passou a vigorar a partir de 1º de janeiro. Além da energia, os gastos com Habitação, que subiram 1,23%, foram influenciados pelos seguintes itens: aluguel residencial (1,26%); mão-de-obra para pequenos reparos (0,95%); condomínio (0,81%); e taxa de água e esgoto (0,77%). Os ônibus urbanos tiveram o terceiro maior impacto de janeiro, com 0,07 ponto percentual e alta de 2,85%, tendo em vista reajustes nas passagens. As maiores altas dos ônibus urbanos ocorreram no Rio de Janeiro (4,67%), com reajuste de 13,34% em 2 de janeiro; Belo Horizonte (4,21%), com 8,77% em 29 de dezembro; São Paulo (4%), com 16,66% em 6 de janeiro; Salvador (2,31%), com 7% em 2 de janeiro; e Recife (1%), com 13,50% em 11 de janeiro. Houve, também, aumento nas tarifas dos intermunicipais, que ficou em 3,89%, sob pressão do Rio de Janeiro (2,89%), com reajuste de 12,46% em 10 de janeiro; Belo Horizonte (9%), com 9,31% em 17 de dezembro; São Paulo (8,46%), com 16,60% em 6 de janeiro; e Fortaleza (6,72%%), com 11% em 29 de dezembro. No grupo das Despesas Pessoais, que teve alta de 1,39%, o destaque ficou com o item empregado doméstico, que subiu 1,49%, além de outros serviços como cabeleireiro (1,54%) e manicure (1,82%). Além disso, foi registrada variação de 3,02% nos cigarros, reflexo do reajuste praticado pelas indústrias. Dentre os índices regionais, o maior foi o do Rio de Janeiro (1,35%), sob pressão dos alimentos (1,96%) e das tarifas de ônibus urbano (4,67%). O menor índice foi o de Salvador (0,49%), onde os combustíveis tiveram queda 1,56%, além da energia elétrica que também apresentou queda (-1,91%) em função de redução das alíquotas do PIS/Cofins. O IPCA-15 de janeiro coletou preços entre 13 de dezembro de 2014 e 13 de janeiro de 2015. O indicador refere-se às famílias com rendimento de 1 a 40 salários mínimos e abrange as regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, Por to Alegre, Belo Horizonte, Recife, São Paulo, Belém, Fortaleza, Salvador e Curitiba, além de Brasília e Goiânia. (Valor Econômico) 

ANDRADE GUTIERREZ PAGOU PMDB, AFIRMA EX-DIRETOR DA PETROBRAS


O ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, afirmou em depoimento da delação premiada que a empreiteira Andrade Gutierrez pagou propinas para o PMDB. Segundo Costa, os valores foram “cobrados e geridos” pelo empresário Fernando Antonio Falcão Soares, o Fernando Baiano, apontado como lobista e um dos operadores do partido no esquema de corrupção que se instalou na estatal. O delator afirmou à Polícia Federal, em relato de 7 de setembro de 2014, que a partir de 2008 ou 2009 a cobrança à Andrade Gutierrez passou a ser feita por Fernando Baiano, não mais pelo doleiro Alberto Youssef – personagem central da Lava Jato que também assinou acordo de delação premiada por meio do qual decidiu colaborar em troca de pena máxima de cinco anos de prisão. Paulo Roberto Costa contou que a empreiteira, mesmo após “ganhar algum contrato” da Petrobras sob responsabilidade de sua diretoria “custava a depositar o valor devido ao PP”. Paulo Roberto Costa foi indicado para o comando da Abastecimento em 2004 pelo então deputado José Janene (PP-PR), morto em 2010. O PP, segundo o delator, era o destinatário de porcentual sobre contratos fraudulentos da diretoria de Abastecimento. O esquema de desvios na Petrobras revelado pela Lava Jato consistia no loteamento de indicados de partidos nas diretorias da estatal para receber propinas com o objetivo de abastecer as respectivas siglas. A propina era cobrada em porcentuais dos valores dos contratos de cada diretoria. Com a substituição de Youssef na cobrança da propina à Andrade Gutierrez por Fernando Baiano, o PMDB passou a ser contemplado com a propina da diretoria. Ele relatou ainda que acreditava que essa mudança ocorreu devido à “proximidade” de Fernando Baiano com o empreiteiro Otávio Azevedo, presidente da holding Andrade Gutierrez. O ex-diretor declarou ainda que o lobista “tem algum negócio em comum” com Azevedo. Em nota oficial, a Andrade Gutierrez contestou com veemência a versão do delator da Lava Jato Paulo Roberto Costa. A empresa afirmou, na nota, que nunca fez parte de qualquer acordo de favorecimento envolvendo partidos políticos. “A Andrade Gutierrez nega e repudia as acusações – baseadas em ilações e não fatos concretos – feitas pelo sr. Paulo Roberto Costa em seu depoimento divulgado na sexta-feira (23) e afirma, como vem fazendo desde o início das investigações, que nunca fez parte de qualquer acordo de favorecimento envolvendo partidos políticos, a Petrobras e a empresa. Cabe lembrar que em depoimentos já concedidos à Polícia Federal pelos srs. Alberto Youssef e Fernando Soares e divulgados pela imprensa, os mesmos deixaram claro que não há qualquer envolvimento da companhia e seus executivos com os assuntos relacionados às investigações da Operação Lava Jato. A Andrade Gutierrez reitera mais um vez que não tem ou teve qualquer envolvimento com os fatos relacionados com as investigações em curso". Em depoimentos à Polícia Federal, Fernando Baiano negou que tenha pago propina na Petrobras. O criminalista Nélio Machado, que o defende, afirmou que só vai se manifestar sobre o teor dos depoimentos de Paulo Roberto Costa no âmbito de seu acordo de delação após ter acesso à íntegra do teor dos depoimentos. O partido vem negando que tenha participado do esquema de pagamento de propinas na Petrobras e também nega que Fernando Baiano seja operador da sigla.

BNB, um banco público, troca garantias de empréstimo para cervejaria por doação de R$ 17 milhões para campanha de Dilma


No começo de 2013, o empresário Walter Faria, dono da Cervejaria Itaipava, a segunda maior do País, queria expandir seus negócios ao Nordeste. A primeira parte do plano envolvia a construção de fábricas na região. Ele optou por erguer a primeira em Alagoinhas, na Bahia, em razão de generosos incentivos fiscais. Faltava o dinheiro para a obra, e conseguir crédito não seria uma missão fácil. Faria e seu Grupo Petrópolis, que controla a Itaipava, tinham nome sujo na praça – e uma extensa ficha policial. Deviam R$ 400 milhões à Receita, em impostos atrasados e multas por usar laranjas, além de notas fiscais. Em 2005, Faria fora preso pela Polícia Federal, acusado de sonegação fiscal. Ficou dez dias na carceragem da Polícia Federal. Três anos depois, em outra operação da Polícia Federal, Faria acabou denunciado pelo Ministério Público Federal por corrupção ativa, formação de quadrilha e por denúncias caluniosas. Segundo as investigações, Faria armara um esquema para retaliar os fiscais da Receita que haviam autuado sua cervejaria anos antes. Iria difamá-los. Contratara para o serviço ninguém menos que o operador do Mensalão do PT, Marcos Valério Fernandes de Souza. A Polícia Federal encontrou R$ 1 milhão na sede da Itaipava em São Paulo – dinheiro que, segundo a acusação, serviria para pagar chantagistas. Marcos Valério foi preso. Mas Faria perseverou. Diante dessa ficha, qual banco toparia emprestar dinheiro para Faria e suas empresas? O Banco do Nordeste, o BNB, criado no governo de Getúlio Vargas para ajudar no desenvolvimento econômico da região – mas que, desde então, é usado com alarmante frequência para ajudar no desenvolvimento econômico dos políticos que mandam nele. Desde que o PTchegou ao poder, em 2003, o BNB, custeado com R$ 13 bilhões em dinheiro público, vem sendo aparelhado pelo partido. As previsíveis consequências transcorreram com regularidade desde então. Escândalos, escândalos e mais escândalos. O último deles, em 2012, revelado por ÉPOCA, derrubou a cúpula do banco após a Polícia Federal entrar no caso – e deflagrou uma cascata de investigações dos órgãos oficiais, como a Receita, o Tribunal de Contas da União e o Ministério Público. Apesar disso, o aparelhamento petista no BNB perseverou, como Faria perseverara. Ambos perseveraram porque partidos como o PT precisam de empresários como Walter Faria, e empresários como Walter Faria precisam de partidos como o PT. No segundo mandato de Lula, Faria, segundo fontes do PT e no BNB, tornou-se próximo dos líderes do partido, como o ex-presidente da República e o tesoureiro informal da legenda, João Vaccari. E manteve essas boas relações. Pelas leis da política, a história que se narra a seguir – fundamentada em documentos internos do BNB, relatórios do TCU e entrevistas com os envolvidos – era inevitável. Ainda no começo de 2013, Faria conseguiu obter do BNB um empréstimo de R$ 375 milhões para construir a fábrica na Bahia. Naquele momento, a nova cúpula do BNB, sob o trauma recente do escândalo que derrubara a diretoria anterior, relutava em fazer negócio com Faria. O então presidente do banco, Ary Joel Lanzarin, fez questão de que Faria apresentasse garantias sólidas para o empréstimo. Exigiu uma garantia conhecida como carta-fiança, em que outro banco garante cobrir o valor devido em caso de calote. Para quem empresta, como o BNB, é um ótimo negócio – praticamente zera o risco de calote. Para quem recebe o dinheiro, nem tanto. Uma carta-fiança tem um custo anual, que varia entre 0,5% e 3% do total do empréstimo. Durante as tratativas, Faria reclamava. Dizia que perderia muito dinheiro com a carta-fiança. Mas capitulou. Ao fim, obteve dois empréstimos, ambos sob as mesmas condições. O de R$ 375 milhões seria destinado à construção da fábrica em Alagoinhas. Outro, fechado depois, em abril de 2014, no valor de R$ 452 milhões, serviria para construir outra fábrica da Itaipava, em Pernambuco. No total, portanto, Faria obteve quase R$ 830 milhões do BNB. Cada empréstimo tinha como principal garantia uma carta-fiança, que cobria integralmente o valor emprestado pelo BNB. Faria teria juros baixos, 11 anos para pagar e dois anos de carência para começar a devolver o dinheiro. Os técnicos do BNB classificaram a operação como segura, em virtude da carta-fiança. Em conversas com os diretores do BNB, no entanto, Faria não desistia de rever a garantia da carta-fiança. Queria porque queria que o banco abdicasse dela, topando ter como principal garantia as fábricas construídas com o dinheiro emprestado. Faria dizia, nesses encontros, que a exigência da fiança lhe custava o equivalente a 2% do valor dos empréstimos – o equivalente a quase R$ 17 milhões ao ano. Para o BNB, era um pedido aparentemente impossível de atender, como seria para qualquer banco privado. Ainda mais porque, pelo contrato de empréstimo, os juros eram pré-fixados. Ou seja: o BNB não poderia compensar a garantia pior com um aumento nos juros do empréstimo. Segundo as regras do Banco Central e três especialistas de três grandes bancos, se o BNB aceitasse as condições de Faria, teria de rebaixar internamente a classificação de qualidade do empréstimo. Essa medida é obrigatória e forçaria o BNB a reservar dinheiro próprio para pagar ao menos parte da dívida de Faria, caso ele desse calote. No jargão do mercado, isso se chama “provisionamento”. Nenhum banco toparia fazer isso. É um péssimo negócio. “Nunca vi alguém aceitar algo parecido”, diz um economista que trabalha com esse tipo de operação para um grande banco brasileiro. Mas o impossível é sempre uma possibilidade na política brasileira. Ainda em abril de 2014, Ary Lanzarin, o presidente que tentava moralizar o BNB, deixou o cargo. O PT pressionava para voltar ao comando absoluto do banco. A presidente Dilma Rousseff aceitou. As diretorias do BNB foram entregues novamente a afilhados de políticos petistas, como o ministro da Defesa, Jaques Wagner. Procurado por ÉPOCA, Wagner preferiu não comentar o assunto. O jogo mudara. Meses depois, no auge da campanha à reeleição de Dilma e dos esforços de arrecadação dos petistas, Faria conseguiu o impossível. No dia 10 de setembro, protocolou o pedido de dispensa da fiança do empréstimo da fábrica na Bahia. Uma semana depois, o pedido foi analisado – numa velocidade espantosa para os padrões de um banco tão lento e burocrático quanto o BNB. Num intervalo de pouco mais de 24 horas, o pedido passou por cinco instâncias do BNB e foi aprovado pelo Conselho de Administração do banco, segundo os documentos obtidos por ÉPOCA. Estava no papel: o BNB aceitara, em tempo recorde, abdicar de uma garantia 100% segura por outras mequetrefes, se comparadas à carta-fiança. De quebra, teve de reservar R$ 3,6 milhões no balanço – o tal “provisionamento” – para cobrir o mau negócio que fechara. Alguns técnicos do banco não gostaram da solução encontrada. Para demonstrar insatisfação, deixaram claro que a dispensa da fiança não seria inócua para o BNB. Em um documento interno obtido por ÉPOCA, funcionários afirmaram: “O nível de risco atualmente corresponde a 8,75 (AA), quando considerada a fiança bancária. Quando considerada a garantia hipotecária do complexo industrial, passa a ser 6,05 (B)” (leia abaixo). Fica claro que a substituição da fiança só interessava mesmo a Faria. A decisão do BNB também contrariou frontalmente uma das principais cláusulas que permitiram a assinatura do contrato: “Outras instituições financeiras de primeira linha estarão comprometidas com o projeto durante o prazo de 11 anos, visto que a fiança que comporá a garantia da operação terá vigência por todo o período do financiamento”. No dia 29 de setembro, apenas 12 dias após seu Grupo Petrópolis obter o impossível no BNB, Faria depositou R$ 5 milhões na conta da campanha de Dilma. Até o dia 3 de outubro, a campanha dela receberia outros R$ 12,5 milhões. No total, Faria doou R$ 17,5 milhões. Tornou-se, assim, o quarto maior doador da campanha da presidente. É aproximadamente esse valor que Faria gastaria com as fianças anuais dos dois empréstimos. O pedido para que o segundo empréstimo, o da fábrica em Pernambuco, também seja dispensado da carta-fiança será feito em breve. Segundo fontes na cúpula do BNB, está encaminhado para ser aprovado.


Procurado por ÉPOCA, o Grupo Petrópolis afirmou, por meio de nota, que a dispensa da fiança gerou economia para a empresa, mas não disse quanto. Afirmou ainda que a fiança foi substituída por outras garantias com “valores até maiores”. Ainda de acordo com a nota, Faria conhece Vaccari, mas negou ter pedido ajuda a ele ou a qualquer pessoa para que a fiança usada no empréstimo do BNB fosse dispensada. Disse, ainda, que todas as doações à campanha da presidente Dilma cumpriram as regras eleitorais. Também por meio de nota, Vaccari disse jamais ter tratado do interesse de qualquer empresa com o BNB. O presidente do BNB, Nelson de Souza, afirmou que a substituição da fiança está prevista nas regras do banco e que nunca esteve com o empresário Walter Faria. Disse, no entanto, que o empresário já esteve com dirigentes do banco para tratar assuntos do interesse dele. (Época) 

Petrolão: o empreiteiro amigo de Lula negocia delação premiada.


Apontado pelos investigadores da Operação Lava Jato como coordenador do "clube" de empreiteiras que fraudavam licitações na Petrobras, o empresário Ricardo Pessoa, da UTC-Constran, negocia um acordo de delação premiada com os procuradores que atuam no caso. Se as negociações derem certo, Pessoa será o primeiro empreiteiro a contar o que sabe em troca de uma redução de pena - o princípio da delação. Já são pelo menos nove os réus da Lava Jato que decidiram colaborar com as investigações, segundo a Procuradoria Geral da República. O grupo UTC-Constran tem 29 mil funcionários e faturou R$ 5 bilhões em 2013, o último dado disponível. Pessoa era o presidente da UTC, cargo que deixou após ser preso em 14 de novembro passado sob acusação de pagar propina para conseguir contratos na Petrobras - o que a UTC nega com veemência. Nas conversas que ocorreram nesta semana em Curitiba, participaram o defensor de Ricardo Pessoa, Alberto Toron, o presidente da Constran, João Santana, que foi ministro no governo de Fernando Collor, e o advogado Antonio Figueiredo Basto, que cuidou das negociações da delação de Alberto Youssef, seu cliente desde os anos 2000. Figueiredo Basto foi chamado para reforçar o time por causa da experiência que tem com delação - é um dos advogados que mais fez acordos de colaboração no país. Dos 11 executivos presos desde novembro em Curitiba, Pessoa é o mais próximo do doleiro Youssef: era sócio dele em um hotel em Salvador e num empreendimento imobiliário em Lauro de Freitas, ao lado da capital baiana. As negociações de Pessoa com os procuradores ainda não foram fechadas porque o executivo diz não ter informações sobre pagamento de propina no setor elétrico. Os procuradores da Lava Jato querem que os delatores não se restrinjam a narrar as irregularidades que praticaram na petroleira. Eles buscam informações sobre outros setores após o ex-diretor Paulo Roberto Costa ter revelado em depoimento que as empreiteiras também agiam como um cartel em hidrelétricas e portos. Pessoa tem dito aos procuradores que a UTC participa de uma única obra do setor elétrico, a montagem da usina nuclear Angra 3, num consórcio do qual fazem parte Camargo Corrêa e Odebrecht. O executivo foi apontado como coordenador do cartel por Augusto Ribeiro Mendonça, ligado à Toyo Setal, que também fez um acordo de delação premiada. Outro delator da Lava Jato, Julio Camargo, contou aos procuradores que um consórcio liderado pela UTC pagou propina para conquistar uma obra no Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro). Ele afirma que não sabia o valor porque o suborno teria sido acertado pelo próprio Pessoa. Três integrantes da cúpula da Camargo Corrêa que estão presos desde novembro também negociam um acordo de delação. Em reunião nesta sexta-feira (23), procuradores e advogados dizem ter encontrado uma forma de beneficiar tanto os executivos como a empresa - um dos pontos mais difíceis do acordo. Com isso, abre-se a perspectiva de a empresa ser incluída na delação, além dos executivos.

SÓ CPI DA ASSEMBLÉIA MOSTRARÁ EXTENSÃO SOBRE ALIANÇA DO TRÁFICO COM GABINETE DO EX-SECRETÁRIO DA SEGURANÇA DO GOVERNO TARSO

O caso do chefe de segurança do ex-secretário Airton Michels é ameaça a todos os cidadãos do Rio Grande do Sul, porque durante quatro anos ele usou como quis da sua senha do sistema de consultas integradas, obtendo as informações que bem desejou. O comissário Nilson Aneli foi surpreendido em Tramandaí no início do mês, quando dava proteção ao chefe do tráfego Xandi, que foi fuzilado sob as suas vistas. É caso de CPI e não apenas de inquérito policial. O governo Tarso Genro está todo sob suspeita. Além de Nilson Aneli, chefe de segurança do então secretário da Segurança, não se sabe quem mais usou do sistema de consultas integradas para beneficiar os bandidos. No governo Yeda, a revelação de que as senhas eram usadas até por jornalistas da RBS, ocasionou escândalo político sem precedentes, inclusive com prisões. (Políbio Braga)

Agência de risco S&P corta nota da Vale por queda de preço do minério

A agência de classificação de risco S&P (Standard & Poor's) rebaixou a nota de crédito da Vale de A- para BBB+, com perspectiva estável. Apesar disso, o grau de investimento (chancela de local seguro para se investir) foi mantido. A nova nota, anunciado na noite de sexta-feira (23), reflete a queda no preço do minério de ferro, o que afeta a capacidade de geração de caixa da Vale enquanto suas despesas continuam altas, devido ao seu plano de investimentos. Nesta semana, a S&P reduziu a sua estimativa para os preços do minério de ferro para US$ 65,00 por tonelada em 2015 e em 2016. Para 2017, a projeção é de US$ 70,00. "O rebaixamento reflete a nossa expectativa de que o perfil de risco financeiro da Vale vai piorar nos próximos dois anos para níveis incompatíveis com o nosso rating anterior", informou a S&P. A performance da empresa só deve melhorar em 2017, quando a mineradora terá concluído os seus projetos de expansão e poderá levar sua produção a nível recorde. Também nesta sexta-feira, o banco americano Goldman Sachs reduziu a recomendação do ADR da Vale de compra para neutra. A decisão também foi motivada por piora nas previsões para os preços dos metais. A notícia foi suficiente para derrubar as ações da empresa na Bolsa. O papel preferencial fechou em baixa de 5,32%, para R$ 18,32, contribuindo para a desvalorização de 1,35% do Ibovespa, principal índice da Bolsa. Em 12 meses, as ações da Vale já acumulam perdas de 33%. No mesmo intervalo, o preço do minério com 62% de teor de ferro na China, referência no mercado internacional, tem queda de 47%, segundo o Steel Index. O novo rating da Vale também está alinhado com a deterioração do cenário macroeconômico no Brasil. Para os analistas da S&P, a habilidade da empresa para cobrir os seus pagamentos, em um período de acesso limitado de exportadores a moeda estrangeira, será restrita. "Esse não era o caso quando o minério de ferro estava em US$ 85,00 por tonelada ou ainda mais caro, o que resultava em uma geração de caixa em moeda estrangeira muito robusta para a Vale". Ao mesmo tempo, no entanto, a S&P ressalta que o petróleo e o câmbio podem beneficiar a planilha de custos da companhia. O custo do transporte para os navios que transportam minério de ferro caíram 40% nos últimos seis meses, enquanto o real se depreciou em 15%.