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segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Petrobras tem o grande desafio de enfrentar uma camada de dois quilômetros de sal

A Petrobras tem pela frente o desafio de trazer à tona o petróleo que está aprisionado sete mil metros abaixo da superfície, aprisionado abaixo das entranhas rochosas da plataforma continental. Não é tarefa fácil, e nem barata. O cobiçado petróleo do megacampo petrolífero de Tupi (mais de 8 bilhões de barris) está enterrado sob dois quilômetros de água, mais dois quilômetros de rocha e, para completar, outros dois quilômetros de crosta de sal. A grande dificuldade é o sal. O Brasil é um dos líderes mundiais em exploração de petróleo em águas profundas, mas nunca teve de atravessar uma crosta desse tipo. "Vamos ter de desenvolver essa tecnologia", diz o engenheiro Nelson Ebecken, coordenador do Núcleo de Transferência de Tecnologia (NTT) da Coordenação dos Programas de Pós-graduação de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), principal parceira acadêmica da Petrobrás. A essa profundidade, pressionado e aquecido pelo calor interno do planeta, o sal se comporta como um material viscoso, o que cria problemas para a perfuração e a manutenção dos poços. "A rocha é dura, mas é estável. O sal não é tão duro, mas é menos estável", explica o engenheiro Edison Castro Prates de Lima. "Você abre o buraco e o buraco fecha", compara o especialista Giuseppe Bacoccoli, do Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia da Coppe. O planejamento dos poços, dizem os pesquisadores, terá de ser extremamente bem feito, para que não entrem em colapso. Trata-se de um ambiente pouco explorado no mundo. No Golfo do México, há poços que chegam a 8 mil metros de profundidade, mas mesmo esses estão acima da camada de sal, segundo Giuseppe. "Já se perfurou sal em outros lugares, mas não a essa profundidade nem com essa espessura", completa Ebecken. Desde que o Brasil começou a tirar petróleo do fundo do mar, no fim da década de 60, não se deparava com um cenário tão complexo. A descoberta do megacampo de Tupi impõe um novo desafio econômico e tecnológico para a exploração petrolífera nacional. Técnicas terão de ser aprimoradas; custos terão de ser reduzidos. Na própria Bacia de Santos, a Petrobrás possui poços de até 5 mil metros de profundidade na rocha, mas em lâminas d’água (a distância entre a superfície e o leito marinho) muito mais rasas, na faixa dos 100 metros. E sem sal. Apesar das dificuldades, todos os especialistas da Coppe ouvidos pelo Estado estão confiantes em que o Brasil tem competência tecnológica para chegar ao óleo de Tupi. O desafio maior diz respeito ao custo, que aumenta exponencialmente com a profundidade e a complexidade da operação. "Talvez cheguemos à conclusão de que podemos, mas não devemos. Vencer a camada de sal implica um custo adicional considerável", completa o diretor de Tecnologia e Inovação da Coppe, Segen Estefen. Além das dificuldades de perfuração, ele prevê a necessidade de "poços inteligentes", equipados com sensores para monitorar a saúde das veias petrolíferas em tempo real. Todos os materiais que vão para o fundo do mar precisam ser duramente testados em terra. A Coppe tem duas câmaras hiperbáricas de fabricação própria, capazes de simular pressões de até mil metros e cinco mil metros de profundidade. São tanques de aço lacrados, com água injetada sob alta pressão. Uma terceira câmara, que está sendo usada justamente para testar os sensores de poços inteligentes, combina profundidade e temperatura (6 mil metros e 200 °C, respectivamente). O projeto para um quarto simulador, de até 7 mil metros, já está pronto e a expectativa é de que entre em operação no início de 2009. A instalação dos poços é toda feita remotamente da superfície, com o uso de robôs. A pressão a dois mil metros de profundidade é 200 vezes maior do que a pressão em terra, ao nível do mar. Dentro das rochas, o petróleo está fervendo. Quando chega ao topo do poço, no leito marinho, está a quase 100°C. Aí começa um outro problema. A água no fundo do mar está a aproximadamente 4°C. Para transportar o petróleo até a plataforma, dois mil metros acima, é preciso mantê-lo quente. Caso contrário, a queda de temperatura induz a formação de "coágulos" que podem entupir completamente os dutos. A solução é revestir os canos de aço com material isolante, ou injetar produtos químicos para evitar o adensamento do óleo. Os dutos que transportam o óleo do solo marinho até a plataforma são chamados de “risers” (do inglês rise, que significa elevar ou ascender). Podem ser de aço rígido ou flexíveis, com camadas intercaladas de aço e polímeros. Uma opção para reduzir o peso dos risers seria usar titânio no lugar do aço, um metal altamente resistente e leve, mas muito mais caro. Isso ainda vai render muita tese na universidade.

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