"São relatos de toques inapropriados, convites inapropriados, a ponto de constranger as mulheres dentro do ambiente de trabalho, de deixar essas mulheres se sentindo humilhadas e, ao mesmo tempo, não têm coragem de falar disso. Afinal de contas, é uma relação de força. É um cargo de alto escalão, existe correlação de força, e eles sentem que não vai dar em nada", diz Silvia Regina de Carvalho Chaves, diretora do sindicato.
Gabriel Leal Marchiori segue sendo servidor de carreira do banco, enquanto corre o processo administrativo contra ele, mas atuando em outro setor e em teletrabalho. Ele está há 12 anos na instituição. Na última semana, apresentou um atestado médico de afastamento por 90 dias.
No mesmo ambiente de trabalho, mais de uma mulher se sentia vítima do diretor, mas não sabiam dos casos entre si e tinham vergonha de contar. Foi a partir da denúncia da estagiária que o silêncio se quebrou. Depois desse primeiro relato, outras mulheres se reuniram em um grupo de WhatsApp para compartillhar suas histórias. Uma delas afirma que Marchiori condicionou uma promoção a ter uma relação com ele. "No decorrer da entrevista, ele deixou claro que gostaria que eu trabalhasse na equipe. Inclusive, se dispôs a falar com outros dirigentes, diretores, para que se efetivasse com celeridade esse processo. Nos despedimos, eu feliz com a perspectiva do novo cargo, da promoção, me dirigi em direção a saída, fui saindo da sala dele em direção ao elevador. Quando cheguei na frente do elevador, eu recebi uma mensagem, dessas mensagens instantâneas, que se desfazem após lidas, e a mensagem dizia 'mais bonita pessoalmente, pena que está tão tímida ou pena que é tão tímida'. A próxima mensagem foi 'eu gostaria de ter a oportunidade de te conhecer melhor'. E a terceira frase foi 'eu posso agora'", relembra. A bancária conta que negou e a promoção nunca veio.
"Quando eu entendi que me convidar para sair estava relacionado com o cargo, eu me senti muito mal porque a minha capacidade profissional foi completamente anulada. O único valor que eu tinha para apresentar era o sexual. O interesse que ele tinha era sexual", conta.
Outra funcionária diz que o diretor costumava perguntar sobre outras mulheres insistentemente. Ela tentava contornar a situação, afinal, era seu chefe e ela não queria ser prejudicada. "Eu já não aguentava mais, e não era só a pressão dele sobre mim, mas era pressão dele sobre a superintendente, a minha gerente, e todo mundo era 'não, aguenta', 'engole esse sapo', 'aguenta que ele já tá saindo, aguenta que ele já tá saindo'. Eu aguentei, eu aturei desde 2019 e eu sei que eu não fui a única pessoa, nem no consórcio, nem no banco. Eu sei que tem muitas outras mulheres por aí", afirma.
Outra mulher conta que ouviu dele: "antes de eu sair da diretoria daqui do consórcio, tu podia me dar um pouquinho". "Na hora eu não sabia se eu ria, o que que eu fazia. Daí eu disse: "tá, é mais uma bobagem, né, mais uma das bobagens dele como sempre'. Daí eu disse 'não, isso não é bobagem, isso não é uma brincadeira'".
Em nota, o Banrisul diz que "não há espaço no banco para a prática de qualquer ato de desrespeito entre as pessoas. A instituição possui valores e princípios que se firmam como pilares para a atuação de todos os nossos colaboradores, seja qual for seu cargo. O Código de Ética e de Conduta, especialmente, estabelece um conjunto de normas que são inegociáveis — orientando com clareza como deve se dar o relacionamento com o público interno e externo".
Isso, na verdade, não passa de abobrinha. Psicólogas credenciadas junto à Caixa de Assistência aos Empregados do Banrisul, a Cabergs, que atendem funcionários com problemas psicológicos, estão cansados de ouvir testemunhos de casos de assédio sexual e moral em ambientes da instituição. Altos dirigentes do Banrisul, que posam de vestais, fazem parte deste rol de assediadores, e até comandam "fundo de investimento" privado que mantém cabarés famosos em Porto Alegre.

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