O Banrisul, se fosse analisado rigorosamente pelo Banco Central, estaria tecnicamente quebrado, falido, porque os custos trabalhistas que carrega têm um potencial de comprometimento acima do valor patrimonial da própria instituição.
Não é por acaso que o governo de Eduardo Leite realizou o PDV, em plena era de emergência nacional pela pandemia do coronavirus, justo quando todo mundo desenvolveu políticas para preservação dos empregos.
O Banrisul precisa mostrar ao mercado financeiro que está tomando medidas urgentes, exemplares e significativas para reduzir esse altissimo endividamento, que já obriga a instituição a fazer provisões que derrubam as expectativas de acionistas quanto ao recebimento de dividendos.
Neste PDV, os aderentes precisavam renunciar às ações trabalhistas contra o Banrisul. A iniciativa recebeu a atenção da associação dos funcionários do banco, que distribuiu o seguinte comunicado a todos:
"Prezados colegas do Banrisul - No último dia 16/09, a Fetrafi RS (Federação dos Bancários do Rio Grande do Sul) promoveu uma votação para a proposta de PDV apresentada pelo Banco. Este procedimento nunca havia acontecido nos PDVs anteriores e o motivo desta votação foi a existência de uma cláusula, na proposta de PDV do Banco, de quitação total do contrato de trabalho por parte dos colegas que aderirem ao mesmo.
Isso significa que os colegas abrem mão das ações trabalhistas em curso, individuais ou coletivas, assim como não poderão ingressar com reclamatórias após saírem do Banco. Esta condição nunca existiu nos PDVs anteriores e só foi possível devido à concordância das entidades sindicais de submeterem esta votação aos colegas e incluírem isso na convenção coletiva de trabalho deste ano.
A proposta do Banco só foi apresentada aos banrisulenses dois dias antes da votação, que ocorreu das 18h às 23h59 do mesmo dia, sendo que puderam votar todos os banrisulenses e não somente os elegíveis para o PDV. O resultado da votação foi 847 x 454 à favor da aprovação, com 14 abstenções. Este resultado gerou grande insatisfação entre os elegíveis, que são os colegas que de fato poderão ou não aderir ao PDV. No sábado, em reunião realizada em Porto Alegre, um grupo de colegas resolveu lançar um abaixo assinado dirigido ao MPT (Ministério Público do Trabalho) para que este interceda, anulando a votação e fazendo uma nova, onde só possam votar os elegíveis, com transparência e democracia no debate, uma vez que a votação foi realizada sem senha individual, sem auditoria externa e com um vídeo institucional do Banco em conjunto com a Fetrafi RS defendendo a aprovação da proposta.
Este grupo de colegas procurou nossa entidade, que prontamente se colocou à disposição dos colegas para ajudar neste objetivo de realizar nova votação com acompanhamento do MPT. Eles querem que o PDV seja realizado, porém sem esta cláusula de quitação total do contrato de trabalho, ou seja em igualdade de condições com os PDVs anteriores".
Muito bem, essa iniciativa resultou em absolutamente nada, porque o Ministério Público do Trabalho se negou a tomar a iniciativa pretendida por funcionários do Banrisul.
A estimativa é que mais de 5.000 funcionários, por baixo, mantenham ações contra o banco, especialmente no caso das chamadas 7ª e 8ª horas, jamais pagas aos bancários. Já ocorreram vitórias definitivas na Justiça do Trabalho contra o Banrisul. Só estas ações pelas 7ª e 8ª horas têm um potencial de prejuízo à instituição superior ao patrimônio do Banrisul.
Para enfrentar esse problema que leva o banco a uma situação agonizante o presidente da instituição, o carioca Claudio Coutinho resolveu promover uma intervenção muito forte na administração do banco. Há cerca de duas semanas ele promoveu mudanças altamente sintomáticas, por meio da Resolução nª 5.100. É uma resolução enorme, com 15 páginas. Mas o que interessa está na página 3. Ali estão os artigos em que deixa claro a intenção de sua medida. Ele nomeou dois diretores que trouxe do Rio de Janeiro para atribuições que mostram a nova estratégia do banco.
A diretora Raquel Santos Carneiro, sócia de Claudio Coutinho em empresa de consultoria no Rio de Janeiro, foi encarregada de cuidar da Assessoria Jurídica, da Secretaria Geral, da Unidade de Gestão de Pessoas e da Unidade de Governança Corporativa. Tudo isso significa dizer o seguinte: ela já está mandando no Jurídico do Banrisul, área que permitiu se formar, ao longo do tempo, esse gigantesco contencioso trabalhista que hoje coloca o Banrisul em situação falimentar, e também já está mandando no DRH (Departamento de Recursos Humanos), de onde se originou o PDV com essa novidade de renúncia dos aderentes a ações trabalhistas presentes (individuais ou coletivas) e futuras contra o Banrisul.
Ela também está comandando um setor novo criado especialmente para chamar funcionário a funcionário e renegociar com cada um deles o passivo trabalhista, contra a retirada das ações que estão tramitando.
Já a outra nomeação importante foi a do diretor Oswaldo Lobo Pires, também trazido do Rio de Janeiro por Cláudio Coutinho. Ele ficou com a Diretoria de Crédito com as seguintes atribuições: Núcleo de Análise de Crédito; Unidade de Recuperação de Créditos; Unidade de Restruturação de Créditos; Unidade de Política de Crédito e Análise de Risco; Unidade de Agronegócios; Unidade de Produtos Imobiliários; Unidade de Produtos de Desenvolvimento e Microcréditos.
O Banrisul é uma instituição que seria imediatamente qualificada como jurássica por qualquer executivo oriundo de bancos privados. É um banco completamente distorcido, com um quadro funcional de cultura completamente burocrática, lenta, amarrada, e sem assunção de responsabilidade, como costuma ocorrer no serviço público.
É um banco cartorial, cuja corporação considera que nunca precisou ou precisa atualmente sair em busca do cliente, porque o dinheiro entra nos cofres sem qualquer esforço, todos os meses, originado das folhas de pagamento do Estado e de municípios, e também da arrecadação pública. O Fundo de Custos Judiciais, por exemplo, está depositado no Banrisul. As estatais têm conta no Banrisul.
Essa mentalidade cartorial faz com que o Banrisul, por exemplo, promova um enorme e custoso evento para lançamento de seu plano de financiamento à agricultura do Rio Grande do Sul, como ocorreu em 2019, alardeie que tem 3 bilhões de reais disponíveis para financiar os agricultores e suas lavouras de soja, milho, arroz e outras culturas, e na hora da Expointer apareça diante de todos impedido de oferecer linhas de financiamento por causa de sua inscrição no Cadin (Cadastro de Inadimplentes) do Banco Central.
Mesmo tendo reiterado que tinha recursos próprios para oferecer ao mercado, só conseguiu contratar menos de 300 milhões de reais, quando a agricultura do Rio Grande do Sul tem valor superior a 40 bilhões de reais.
Ou seja, é um resultado pífio, irrisório. Banco vive de emprestar dinheiro, se não sabe, ou não consegue fazer isso, tem que fechar as portas. Portanto, o desafio é gigantesco para Oswaldo Lobo Pires, implicará em mudar a cultura de trabalho dos funcionários do Banrisul, e isso não será nada fácil, em uma instituição em que ninguém pode ser demitido a não ser por justa causa e mediante processo.
E, como se não bastasse, o Banrisul tem um quadro funcional envelhecido. E tem uma outra situação gravíssima que precisará ocupar muitos momentos dos diretores Raquel Santos Carneiro e Oswaldo Lobo Pires: trata-se das garantias do banco.
É inacreditável, mas o Banrisul não tem controle sobre suas garantias, o registro de seus contratos de financiamento. É uma desordem absoluta. Se o Banrisul resolvesse vender carteiras de crédito, e passasse por uma "due diligence" do valor desses papéis, ou se o Banco Central realizasse uma auditoria específica neste sentido, encontraria que as referidas carteiras estão comprometidas por ausência de contratos regularmente registrados e mantidos.
Esse é o Banrisul que os cariocas Claudio Coutinho, Raquel Santos Carneiro e Oswaldo Lobo Pires precisam mudar, e muito, em curtíssimo espaço de tempo.
Ao menos eles têm uma ajuda extemporânea: a Rádio Corredor não está funcionando devido à pandemia do coronavirus. Um dia, lá no início dos anos 90, um antigo chefe do Departamento de Recursos Humanos disse que, dentro do Banrisul, quem mandava era a Rádio Corredor, ou seja,o cochicho de ouvido a ouvido dos funcionários nos banheiros, nos corredores, no café, no almoço.
Agora a maioria dos funcionários, grande número em situação de risco, estão trabalhando em casa, no home office, e a sede central do Banrisul parece um gigantesco cemitério de zumbis.



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