domingo, 5 de outubro de 2014

As urnas em SP, PR, MG e DF. No RS, Ana Amélia liderou até a semana passada e está fora do segundo turno; Sartori, em terceiro, lidera

A boca de urna do Ibope confirma o que indicavam as pesquisas mais recentes. Vamos começar pelos dados mais eloquentes. A eleição se resolve no primeiro turno em São Paulo, Paraná e Minas. Geraldo Alckmin se reelege com 52% dos votos — seguido por Paulo Skaf, com 22%, e Alexandre Padilha (PT), com 20%. A ser assim, o petista teria bem mais votos do que apontavam as pesquisas, embora continue entre os piores índices da história do partido. Com 32,27% dos votos apurados, neste momento, o governador marca 59,03%; Skaf, 21,56%, e Padilha, 16,5%. No Paraná, a boca de urna do Ibope confirmou a reeleição de Beto Richa (PSDB) no primeiro turno, com 55% dos votos. Roberto Requião (PMDB) ficou com 27%, e Gleisi Hoffmann (PT), com apenas 14%. Com 32,69% dos votos apurados, o resultado vai se confirmando: Richa: 56,59%; Requião, 26,8%; Gleisi, 14,30%. Em Minas, o Ibope aponta a eleição de Fernando Pimentel (PT) no primeiro turno, com 53%, seguido por Pimenta da Veiga (PSDB), com 37%. Com 25,64% das urnas apuradas, a diferença é bem menor em favor do petista: 50,93% a 43,93%. Não dá ainda para cravar a vitória do petista no primeiro.

Humilhação
No Distrito Federal, vai se confirmando a humilhação de Agnelo Queiroz (PT), apontada pelas pesquisas e pela boca de urna do Ibope: Rodrigo Rollemberg (PSB), 44%; Jofran Frejat (PR), 29% e Agnelo Queiroz (PT), 21%. Com 91,91% dos votos apurados, Rollemberg tem 47,48%; Jofran, 27,72%; Agnelo, 20,03%.
Rio Grande do Sul
A boca de urna e a apuração confirmam que Ana Amélia (PP), que liderou a disputa até a semana passada, está fora do segundo turno. Mais do que isso: José Ivo Sartori, que sempre esteve em terceiro, lidera a apuração e deve chegar em primeiro. Nem a boca de urna do Ibope captou isso. Colheu os seguintes resultados: Tarso Genro (PT), 35%; José Ivo Sartori (PMDB), 29%, e Ana Amélia Lemos (PP), 26%. Com 53,43 dos votos apurados, o peemedebista lidera, com 41,40% dos votos, contra 31,88% do atual governador e 21,82% da candidata do PP. Querem saber? Sartori já pode correr para o abraço: vai vencer no segundo turno. E os institutos de pesquisa têm de se perguntar onde erraram. Por Reinaldo Azevedo

Aécio Neves na reta final. E com algo em torno de 34%. Institutos de pesquisa estão surpresos. Acho que o povo não

Pois é… Há uma grande diferença entre a população ter um chilique só para contrariar institutos de pesquisa e estes institutos errarem feio. Foi o que aconteceu. Ora, o povo, que se saiba, não é dotado de nenhuma anomalia só para contrariar pesquisadores, não é? Assim, em vez de os jornalistas saírem por aí a dizer que a população surpreendeu, seria mais correto afirmar que os institutos erraram. E não erram pouco. Foi um erro cavalar. Com 95% dos votos apurados, o tucano Aécio Neves tem 34,08% dos votos válidos, contra 41,14% da petista Dilma Rousseff. Marina Silva tem 21,19%. Ora, o que disseram ontem Datafolha e Ibope sobre votos válidos? O primeiro instituto previa 44% para Dilma, 24% para Aécio e 22% para Marina. O Ibope dava 27% para o senador mineiro, 24% para a candidata do PSB e 46% para a petista. Querem recuar um pouquinho? No dia 2 de outubro, três dias antes do pleito, o Ibope previa 22% para o tucano, que terá, quase 10 pontos a mais. E antevia 47% dos válidos para Dilma, que vai ter uns cinco ou seis a menos. Atenção! Três dias antes da eleição, o Ibope previa uma diferença entre Dilma e Aécio de 25 pontos. Será em torno de 5 ou seis. Desculpem! Não venham me falar em mudança de opinião da população de última hora. Isso é erro mesmo! No mínimo! Mais: coisas assim não são irrelevantes, não é? Desanimam a militância, destroem palanques, criam dificuldades para arrecadar recursos. Convenham: Aécio era dos poucos tucanos que acreditavam que poderia chegar ao fim. E chegou! E São Paulo está fazendo a diferença — trato do assunto em outro post. Por Reinaldo Azevedo

Após derrota de Marina Silva, economista Eduardo Giannetti declara apoio a Aécio Neves

Economista Eduardo Giannetti da Fonseca

Economista Eduardo Giannetti da Fonseca declara apoio a Aécio Neves (Germano Luders/VEJA)
O economista Eduardo Giannetti da Fonseca, responsável pela área econômica do programa de governo de Marina Silva, declarou neste domingo apoio ao candidato tucano Aécio Neves, que disputará o segundo turno contra a presidente Dilma Rousseff. "Com Dilma, não dá", disse Giannetti ao chegar ao Espaço do Bosque, no bairro da Lapa, em São Paulo, para onde a ex-senadora se dirigiu após voltar do Acre. O economista esclareceu que esta é a sua opinião e que não fala na condição de porta-voz de Marina Silva . 

Investigações sobre o caso Alstom mostram que a operação começou antes do governo tucano

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MISTÉRIO DO ESCLARECIMENTO Sede da Alstom em Paris (à esq.). O “Neves” da investigação sobre a empresa (no alto) era na verdade “Neveu”, sobrinho, em francês. Mário Bicudo (no centro) era sobrinho do jurista Hélio Bicudo (abaixo), apelidado de “Tonton” – titio, em francês (Foto: Jacques Brinon/AP)
Os primeiros indícios de que agentes públicos brasileiros recebiam propina da multinacional francesa Alstom e de que eram parte de um esquema mundial de corrupção vieram à tona em 1997. A principal prova era um memorando interno da empresa, um manuscrito em que apareciam três codinomes ligados a três indicações de percentuais (leia acima). O memorando é essencial para entender o funcionamento do esquema que pagou, de acordo com o Ministério Público Federal, o equivalente a R$ 23,3 milhões (em valores atuais) em propina a agentes públicos do Estado de São Paulo. Em troca da propina, segundo as acusações, a Alstom conseguiu contratos com estatais paulistas para ampliar e construir subestações de energia que abasteceriam o metrô. Dois dos codinomes da corrupção foram rapidamente desvendados. O primeiro, a sigla “C.M.”, referia-se ao lobista Cláudio Mendes. O segundo nome, “Splendor”, não era um codinome, mas uma empresa de consultoria que trabalhava para a Alstom. O terceiro se tornou um grande mistério: “Neves”. Quem era “Neves”? Até recentemente, não se sabia. Num depoimento para autoridades suíças, a que ÉPOCA teve acesso, o ex-executivo e consultor da Alstom Michel Cabane desvendou o mistério. Ele se devia, em parte, à caligrafia do autor do memorando. O nome, na verdade, não era “Neves”, mas “Neveu”, ou sobrinho em francês. “Neveu” era Mário Bicudo Filho, um ex-funcionário da Companhia Energética de São Paulo (Cesp) que já morreu. Essa descoberta levou a outra: o esquema Alstom não começou no governo tucano – o domínio do PSDB em São Paulo se iniciou com a eleição de Mário Covas em 1994 –, mas bem antes, durante as gestões de Orestes Quércia (1986-1990) e Luiz Antonio Fleury Filho (1991-1994). Mário Bicudo atuava nesse período, assim como o lobista Cláudio Mendes. Se Mário Bicudo era o sobrinho, quem era o tio? A resposta, confirmada pelo depoimento: o tio de Mário Bicudo era o jurista, ex-procurador e ativista dos direitos humanos Hélio Bicudo. Nos documentos da Alstom, ele aparece identificado pelo codinome “Tonton” – titio, em francês. Cabane disse aos procuradores suíços que Hélio Bicudo esteve na folha de pagamentos da Alstom. Segundo Cabane, Bicudo recebia por ser um “patrocinador” da Alstom dentro do governo. Cabane disse ainda às autoridades suíças que Hélio Bicudo não participou do “aditivo 10 do projeto Gisel” – nome pelo qual é conhecida, na investigação, a propina paga em troca de prestação de serviços. Seus préstimos foram exercidos antes. Outro depoimento a que ÉPOCA teve acesso esclarece os laços entre a Alstom e Hélio Bicudo. O ex-consultor da Alstom Jean-Pierre Courtadon disse a promotores paulistas que “Tonton”  – o titio – era uma espécie de “conselheiro informal da Cegelec” (empresa que pertenceu ao grupo Alstom) e era “amigo da diretoria da empresa”. De tão estimado, ganhava “passagens aéreas para visitar a França”. A ligação de Hélio Bicudo com o setor elétrico remonta à década de 1960. Durante o governo Carvalho Pinto (1959-1963), ele presidiu a estatal Centrais Elétricas de Urubupungá (Celusa). Ex-procurador de Justiça, com um currículo de 32 anos no Ministério Público paulista, Hélio Bicudo fez fama pela forma com que enfrentou o Esquadrão da Morte durante a ditadura militar. O grupo, liderado pelo ex-delegado Sérgio Paranhos Fleury, executava suspeitos de crimes. Suas denúncias levaram agentes do regime à prisão. Paralelamente ao cargo de procurador, que tem entre suas atribuições fiscalizar irregularidades com dinheiro público, Hélio Bicudo trabalhou para a Alstom. O próprio Hélio Bicudo confirmou a informação em testemunho ao MP, em setembro de 2013.

COMEÇOU CEDO Os ex-governadores Orestes Quércia e Luiz Antonio Fleury Filho. Segundo as investigações,  o “caso Alstom” começou na era PMDB (Foto: Mônica Vendramini/Folhapress)
No depoimento, Hélio Bicudo disse que o primeiro contato com a Alstom ocorreu na década de 1970. Na ocasião, ele afirmou que  foi procurado para prestar consultoria jurídica na área de licitações. Disse que não lembrava dos serviços prestados, mas afirmou que tinham ligação com a estatal Cesp. Questionado se tinha conta no exterior, Hélio Bicudo afirmou ser possível, “pois recebia da Alstom mediante remessas bancárias internacionais”. Segundo promotores envolvidos na investigação, há indícios de que Hélio Bicudo tenha praticado, ao menos, tráfico de influência – crime prescrito pelo tempo e pelas mudanças na legislação. O advogado de Hélio Bicudo, Claudio José Langroiva, disse a ÉPOCA que seu cliente já prestou os esclarecimentos aos promotores e que, no depoimento, afirmou que, no período da consultoria, não havia impedimentos legais para que integrantes do MP advogassem. A partir do desvendamento do codinome “Neves”, ou “Neveu”, os investigadores começaram a entender o caso Alstom antes das gestões tucanas. O primeiro contrato do aditivo que se tornou alvo de ação na Justiça Federal ocorreu em junho de 1990. Segundo ex-consultores da Alstom, ao menos três pessoas próximas à gestão peemedebista procuraram a empresa para acelerar o projeto em troca de propina. Segundo o depoimento dos representantes da Alstom, a primeira oferta partiu do ex-secretário de Energia da gestão Quércia, João Oswaldo Leiva, que pediu 10% do valor total do aditivo. Depois, segundo o mesmo depoimento, Mario Bicudo Filho, ex-funcionário da Cesp, solicitou 8,5% – e chegou até a selar um acordo de “consultoria” com a Alstom por escrito, em 20 de abril de 1994. Pelo documento, redigido em francês, receberia a “comissão” se tirasse o aditivo do papel até o último dia de 1994, quando o PMDB passaria o comando do Estado ao PSDB. Por último, relatam no processo os representantes da Alstom, a companhia foi procurada por Cláudio Mendes, o “C.M.”, que exigiu 7%. Ele formalizou um acordo com a Alstom para receber a “comissão” por meio da empresa Santo Trading, controlada por ele e sediada na Irlanda. Mendes não foi localizado por ÉPOCA. Em depoimento ao MP, disse que nunca teve contas ou empresas no exterior nem ouviu falar de projeto Gisel. Negou também ser lobista. Procurado por ÉPOCA, o ex-governador Fleury diz não se lembrar de Mendes nem de Mário Bicudo, apenas do político João Leiva. Afirma também que “não ocorreram fraudes nem irregularidades para financiar caixas de campanha em seu governo”. Na Justiça, Mendes reafirma constantemente que não recebeu propina. Os recursos provavelmente não chegaram mesmo. É que, assim como “Neveu” ou Leiva – morto em 2000 –, ele dependia de que a operação se efetivasse até o fim do governo do PMDB. Nenhum banco concordou em financiar o projeto. Na época, o Brasil ainda amargava a falta de credibilidade pós-moratória perante o mercado internacional, e isso abalava a confiança nas estatais. Os desembolsos da Alstom relacionados ao aditivo 10 só começaram efetivamente em outubro de 1998. Foi quando o governo, administrado por Mário Covas (PSDB), tirou o projeto do papel. De acordo com Cabane, houve uma corrida contra o tempo – de corruptos e corruptores – para começar o projeto antes das privatizações das estatais paulistas de energia. De acordo com o Ministério Público Federal, a Alstom distribuiu o suborno a agentes públicos paulistas até 2002. Procurada por ÉPOCA, a Alstom disse: “A empresa informa que colabora com as autoridades sempre que solicitada, mas o processo mencionado é sigiloso,  e o acesso não nos foi concedido. A empresa reforça que sempre segue as regras de licitações e as leis dos países em que atua”.