quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Morre o cardeal comunista Dom Paulo Evaristo Arns, o homem da Teologia da Libertação e fundador do PT



Morreu nesta quarta-feira (14), na capital paulista, o arcebispo emérito de São Paulo, cardeal dom Paulo Evaristo Arns, aos 95 anos. Ele estava internado no Hospital Santa Catarina desde o último dia 28 com problemas pulmonares. Nesta semana havia sofrido uma piora em sua função renal e estava na UTI. A morte ocorreu às 11h45. Ele foi chamado de cardeal da liberdade, bispo dos oprimidos, cardeal dos trabalhadores, bispo dos presos, bom pastor, cardeal da cidadania, guardião dos direitos humanos e tantos outros. Ao final da vida, quando lhe perguntaram como gostaria de ser lembrado, deu uma resposta singela: "amigo do povo". Isto já demonstrava sua tendência comunista, porque ele não dizia do povo de Deus. Como padre, bispo e cardeal, "lutou pela liberdade, ficou ao lado dos trabalhadores e dos oprimidos, combateu em defesa dos direitos humanos, mas foi, sobretudo, exatamente como gostaria de ser lembrado, um amigo do povo". Agiu sempre como um pastor comunizante, subindo morros, frequentando favelas, ando pelas periferias e também enfrentou os militares para dar proteção a comunistas que se opunham ao regime. Quando aconteceu o assassinato do jornalista comunista Vladimir Herzog, membro do Partido Comunista Brasileiro, nas dependência da Oban (Operação Bandeirantes), que funcionava na delegacia de Polícia Civil na Rua Tutóia, no bairro do Paraíso, em São Paulo, por agentes do governo, em 1975, Dom Paulo Evaristo Arns comandou na Catedral da Sé um culto ecumênico que, reunindo milhares de pessoas, o qual acabou por se transformar em um dos atos públicos mais significativos da luta contra o regime militar instalado 11 anos antes no País. Esse ato foi oficiado por ele e mais o pastor protestante Richard Wright e o rabino Henry Sobel. Uma semana antes o rabino já tinha desafiado as autoridades, ao determinar que fosse aberto o caixão de Valdimir Herzog, o que determina o rito judáico, para que o corpo fosse limpo. Os militares não queriam que o caixão fosse aberto o que permitiria testemunhos das torturas a que Vladimir Herzog tinha sido submetido. Mais do que isso: o rabino Henry Sobel determinou que o corpo de Wladimir Herzog fosse enterrado em vala normal no cemitério judaíco, em São Paulo, e não junto aos muros, isolados dos outros, como fazem na religião judáica com os suicidas. Os militares davam a versão de que Vladimir Herzog tinha se suicidado na cela da Oban. 

 
O golpe de 1964 colheu o frade franciscano dando assistência religiosa aos moradores dos morros de Petrópolis (RJ). Lá chegara depois de uma trajetória iniciada no dia 14 de setembro de 1921, quando nasceu na colônia de Forquilhinha, região de Criciúma, em Santa Catarina. Teve 13 irmãos, quatro dos quais (três freiras e um padre) se dedicaram também à carreira religiosa — sendo Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança que morreu no terremoto do Haiti em 2010, a mais conhecida. 


Pela mãe, Helena, nutria uma enorme ternura, mas a admiração reverencial pelo caráter do pai, Gabriel, salta das páginas autobiográficas do volume "Da Esperança à Utopia - Trajetória de uma Vida" (Editora Sextante, 2001). Nas memórias, trata a mãe quase como santa e o pai como ídolo. Identifica nele o "herói anônimo da não violência" que o inspiraria pelo resto da vida. Relata com dramaticidade o episódio em que o velho descendente de alemães se coloca à frente de uma arma para apartar uma briga entre irmãos no armazém da colônia, de sua propriedade. Corajoso, líder e democrata - assim dom Paulo via o próprio pai, em cujos exemplos, conta, baseou-se para implantar uma gestão participativa na Arquidiocese de São Paulo. Da infância herdou também, sobretudo da mãe, a profunda religiosidade que o acompanharia para sempre. Estudou teologia exaustivamente e se especializou na patrística -a história e a filosofia dos primeiros séculos do cristianismo. Foi um homem culto. O amor à cultura também vem da infância, por influência de dois tios, Adolfo e Jacó, professores em Forquilhinha e declaradamente seus mais queridos mestres. Calçou sapatos pela primeira vez aos oito anos - antes, só tamancos - e assim que conseguiu convencer seu pai, que o queria como sucessor à frente do armazém da colônia, partiu para a o seminário menor franciscano de Rio Negro, no Paraná, em 1934. De lá seguiu para Rodeio, Santa Catarina. Em seguida, transferiu-se para o seminário de Petrópolis, no Rio de Janeiro, onde foi ordenado sacerdote em 1945. Escolhido por seu superior para estudar teologia, embarcou para a França, aportando na Sorbonne do pós-guerra. Lá se dedicou também ao estudo de línguas e recebeu o título de doutor, em 1952. No mesmo ano voltou ao Brasil, lecionou em instituições franciscanas e dedicou-se a escrever livros e artigos, tornando-se jornalista profissional. Trabalhou, então, como vigário nos subúrbios de Petrópolis, onde foi à luta organizando a população das favelas locais. Inspirou-se em ensinamentos tirados da infância: "O povo é a família do padre (...). E o padre (...) não é fujão nem frouxo". Nomeado bispo em 1966, por decisão pessoal do papa Paulo 6º, a quem conhecera em Roma, voltou à terra natal para ser ordenado ao lado dos colonos de Forquilhinha. A seguir assumiu a função de bispo auxiliar de São Paulo, por uma improvável escolha do cardeal Agnelo Rossi, alinhado à ala conservadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Como bispo auxiliar da região norte da maior cidade brasileira, começou a visitar os presos comuns no Carandiru e, por designação do cardeal, foi ao presídio Tiradentes saber das condições de um grupo de frades dominicanos encarcerados por motivos políticos, entre eles frei Betto e frei Tito, que tinham ligações umbilicais com organizações terroristas comunistas. Constatou que foram torturados e encontrou Tito esvaindo-se em sangue. Voltou ao cardeal e relatou o que viu. Para sua surpresa, como relata em "Da Esperança à Utopia", ouviu de seu superior: "Muito obrigado dom Paulo, (...) mas outros me garantem que não há tortura nas nossas prisões". Ele nunca criticou publicamente dom Agnelo pela declaração. Mas a partir desse batismo de sangue, assumiu em São Paulo a vanguarda da luta pelos direitos humanos e pela defesa dos presos políticos. Em outubro de 1970, foi designado titular do arcebispado em substituição ao cardeal Rossi, que foi servir em Roma. Outra vez, uma escolha pessoal de Paulo 6º, o papa que dom Paulo mais admirou e de quem se aproximara em passagens de estudos pelo Vaticano. 


À frente da Igreja de São Paulo, aplicou ensinamentos do Concílio Vaticano 2º e transformou em ações concretas a opção preferencial pelos pobres afirmada na Conferência Episcopal de Medellín, Colômbia, em 1968. Aí ocorreu o lançamento público da comunizante Teologia da Libertação. Começou a gestão vendendo o imponente palácio episcopal. Com o dinheiro, comprou terrenos em bairros populares para construir centros comunitários e instalações religiosas modestas, dando início à "Operação Periferia". Investiu em trabalho comunitário, foi às periferias, voltou-se para os migrantes e espalhou Comunidades Eclesiais de Base pelos quatro cantos da cidade. Estas comunidades eclesiais acabaram se tornando em uma das três pernas do tripé responsável pela fundação do PT, em fevereiro de 1979, não por acaso em ato ocorrido em seminário do bairro Ipiranga. E não por acaso, quando Lula e o PT chegaram ao poder, finalmente, lá estava como secretário geral do PT a figura de Silvinho "Land Rover" Pereira, um corrupto originário das comunidades de base da Igreja Católica no litoral de São Paulo. Dom Paulo Evaristo Arns enfrentou os sucessivos comandantes do 2º Exército (hoje Exército do Sudeste), sediado em São Paulo, e até presidentes da República. Em um encontro com o presidente militar Emílio Garrastazu Médici, um general cavalariano e fazendeiro de Bagé, a conversa encerrou-se aos berros. Foi Médici quem decretou, depois, em 1973, a cassação da rádio Nove de Julho, tradicional emissora da igreja em São Paulo. Do mesmo modo, desafiou as autoridades civis de São Paulo, de governadores afinados com a ditadura a secretários de Segurança e delegados de polícia, tentando preservar a vida e assegurar os direitos fundamentais dos presos políticos. Com base no exemplo de Paulo 6º no Vaticano, reproduziu na Arquidiocese de São Paulo a Comissão Justiça e Paz, em 1972, indo buscar o jurista Dalmo de Abreu Dallari para ser seu primeiro presidente. Este é um dos fundadores do PT e grande ideólogo petista. Paulo 6º declaradamente o admirava e, no consistório de 1973, elevou-o a cardeal. Dom Evaristo Arns usou nova insígnia papal para se contrapor aos desmandos da repressão política. Apoiou decididamente o procurador Hélio Bicudo em sua luta contra o Esquadrão da Morte -quadrilha policial de assassinos de que fazia parte um notório torturador e ícone da ditadura, o delegado Sergio Paranhos Fleury. Bicudo acabou sendo outro notável dentro do PT e foi candidato a vice-presidente da República em chapa liderada pelo poderoso chefão da orcrim petista, Lula. Foi a Comissão Justiça e Paz que publicou nos anos 70 o livro de Bicudo sobre o Esquadrão da Morte, recusado por editoras comerciais. No período sofreu ameaças e calúnias — como denúncias anônimas tachando-o de homossexual. Sobre isso jamais se pronunciou, demonstrando absoluto desprezo por seus detratores. Mas admitiu ter sido informado de que o acidente de automóvel que sofreu no Rio de Janeiro fora na verdade um atentado à sua vida. Sobreviveu e ainda bateu muito na ditadura - por exemplo, patrocinando a publicação "Brasil: Nunca Mais", sobre os mortos e desaparecidos na ditadura militar. Apanhou também.  Um dos animadores de suas organizações de base, o operário comunista Santo Dias, membro do Partido Comunista Brasileiro e presidente da Pastoral Operária, foi assassinado pela polícia com um tiro nas costas durante uma manifestação popular. O nome do operário -"cuja sorte foi a mesma de Jesus Cristo pregado na cruz", nas palavras de dom Paulo- tornou-se mais um símbolo da luta do cardeal com a criação, anos mais tarde, do Centro Santo Dias de Defesa dos Direitos Humanos, hoje internacionalmente conhecido. Na prisão, dom Paulo foi ainda visitar — e procurar proteger sob o manto cardinalício - sindicalistas e estudantes. No episódio Herzog, sua figura se agigantou. O regime militar fez de tudo para desqualificá-lo e ensaiou até manobras diplomáticas junto ao Vaticano por seu afastamento da Arquidiocese de São Paulo. 

Um comentário:

Anna Paula May disse...

Ficar ao lado de pobres e oprimidos não significa que seja comunista. Santa paciência !